terça-feira, 24 de agosto de 2010

Celebração




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A primeira crítica

CORREIO
CADERNO VIDA
19.08.2010

A ruína de uma família

Franco Fuchs

Dos escombros de uma família desagregada com a morte de seu velho patriarca se levanta uma pesada nuvem de hipocrisia, mesquinhez e perversão. Da mistura desses elementos é feita A Suave Anomalia (Casarão do Verbo/R$ 35/232 páginas), boa estreia do soteropolitano Márcio Matos, 32 anos, que lança a obra hoje, às 19h30, na Galeria do Livro do Espaço Glauber Rocha, na praça Castro Alves.
De início, este romance pode soar arrastado. Principalmente pela linguagem um tanto empolada do narrador, que faz um retrato ácido e detalhista da família Melias Sá, um núcleo aparentemente comum, de classe média alta, mas decadente e às voltas com a partilha dos bens do avô - personagem assim chamado simplesmente.
A partir do quinto capítulo, porém, o leitor é surpreendido e definitivamente fisgado. O que parecia uma crônica de costumes se transforma em um instigante thriller policial. É quando o autor levanta suspeitas sobre a real causa da morte do avô. A hipótese de ele ter sofrido um corriqueiro enfarte é substituída pela possibilidade de envenenamento. Ainda mais quando se descobre que o velho, violento e depravado, não era exatamente benquisto por seus parentes.

Erudito pop - Além de misturar gêneros, o livro de Márcio Matos chama atenção por mesclar referências tanto eruditas quanto do universo pop. Assim, tem personagem que cita Freud (1856-1939), como a nora Tamisa, ou aprecia as pinturas barrocas de Caravaggio (1571-1610), feito a matriarca Salustiana. Em outro momento, um agregado surge com uma camiseta do Wolverine, e a jovem Marina, filha do "avô", passeia pela trama ouvindo o compositor americano Elliott Smith (1969-2003) e a banda brasileira Los Hermanos.
Aliás, o próprio autor confessa que adora escrever ouvindo música, e conta que o capítulo final foi escrito ao som do álbum A Rush of Blood to the Head, do Coldplay.
Outra marca que vale a penas destacar em A Suave Anomalia é a ausência da tal baianidade, presente em tantos livros de autores locais consagrados. "Não gosto de situar minhas histórias em locais específicos. Prefiro deixar as coisas em aberto", explica Márcio. Ele diz ser mais influenciado por figuras como James Joyce (18825 - 1941), Philip Roth e Eça de Queirós (1845-1900), do que pelos conterrâneos Jorge Amado (1912-2001) ou João Ubaldo Ribeiro.

Futuro Promissor - Contemplado pelo edital de apoio à publicação de obras de autores baianos da Secretaria de Cultura do Estado, A Suave Anomalia é o primeiro livro de Márcio, mas não o único. Ele tem uma novela concluída na gaveta, intitulada Voo Noturno, e já finaliza outro romance, chamado Ludovico, demonstrando como busca consolidar um projeto literário.
"Desejo alçar voos ainda mais ambiciosos e quero que minhas obras circulem pelo país”, diz o autor, que tem seu romance exposto no stand da Câmara Baiana do Livro, na Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
O trabalho como chefe de Comunicação dos Correios e como professor de Relações Públicas na Unifacs não é empecilho para ele continuar escrevendo: "Os personagens gritam na minha cabeça o dia inteiro. Atravesso as madrugadas com o maior prazer escrevendo histórias".

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

E o que é felicidade, hein?

Um livro que finalmente ganha o mundo.
Os parentes e amigos reunidos.
Um encontro de muitos abraços.
A comunhão de (boas) expectativas.

Outros certamente farão idéia diferente da felicidade. Eu, até quando estiver bem velhinho, permanecerei cativo da experiência de felicidade que a noite de ontem me proporcionou. Obrigado a todos que prestigiaram o lançamento de A suave anomalia. Aos que não puderam ir, mas enviaram bons presságios, também deixo meu muito obrigado.



quarta-feira, 18 de agosto de 2010

(...)
Procuro despir-me do que aprendi,
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram,
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos,
Desencaixotar minhas emoções verdadeiras,
(...)
E assim escrevo, ora bem ora mal
Ora acertando com o que quero dizer, ora errando,
Caindo aqui, levantando-me acolá,
Mas indo sempre em meu caminho como um cego teimoso.

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Entrevista na Rádio Cruzeiro AM 590

Confira aqui a entrevista concedida por Márcio Matos a Moisés Bisesti, na Rádio Cruzeiro AM 590.

O som e a palavra

Your hand on his arm
The hay stack charm around your neck
Strung out and thin
Calling some friend trying to cash some check
He’s acting dumb
That’s what you’ve come to expect
Needle in the hay (...) *

Canção silenciosa, sarjeta dos afetos reprimidos. Marina não queria ouvir a voz de Neto cantarolando música besta. Então, aumentou o volume no miolo do cérebro. Needle in the hay, needle in the hay, needle in the hay. A quentura quase suor umedecia o corpo de leve e irrigava as fantasias. Que assombro, que furor, que impulsos! A vontade estendida no contato prenunciava a má ventura. Não se poderia apostar apenas no momento, o momento é só segundo, nuvem. Depois, a tempestade vem, com todas as suas heresias e tormentas.

(*) Needle in the hay, de Elliott Smith

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terça-feira, 10 de agosto de 2010

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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Sonho desperto

Ontem, sem dúvida, foi uma das noites mais felizes da minha vida. Ontem, eu deixei que caísse sobre mim aquele orgulho besta, que faz a gente se sentir um pouco melhor do que de fato é. Foi uma das melhores noites de sono que já tive. Curiosamente, não sonhei - ou pelo menos não me lembro de ter sonhado. Há uma justificativa. Meu sonho estava desperto e, com suas 230 páginas, acalentava meu sono. Cheguei a acordar algumas vezes, toquei no sonho recém-impresso e, confesso, duvidei da realidade. A realidade, esse troço chato, que em geral apenas nos massacra, pela primeira vez se mostrou muito mais interessante do que um sonho bom.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Sobre literatura e dissecção de moluscos

Por Kátia Borges


“Acordar não é de dentro. Acordar é ter saída”
João Cabral de Melo Neto


É sobre um doloroso despertar que se debruça, em hábil prosa, este A Suave Anomalia. Morto o patriarca, eis que todos percebem que nunca estiveram verdadeiramente vivos, ou ao menos inteiramente despertos. É o local onde moram que os habita, ocultando entre suas paredes sentimentos que não ousam quarar ao sol suas vestes.

Não por acaso é o casarão que primeiro se descortina em um convite imperioso às visitas. Ao entrar, nos esgueirando sorrateiramente pelo corredor, após empurrar de leve a porta entreaberta para a sala antiga, quase ouvimos o pigarrear alto e fingido do avô, personagem que logo assoma vigoroso, sólido como as paredes que o abrigam.

É a morte do velho, agonizante desaparição, que fragilizará a pequena fortaleza da família, esse molusco cefalópode, cujos tentáculos estendem-se por entre noras, genros e agregados. Para entender tão delicado monstro marinho, é impossível ignorar a multiplicidade de pés com que se move, a sua natureza e organismo.

Mas nem todo conhecimento sobre o que compõe nossos corpos pode nos livrar das armadilhas da alma. É o que percebe o avô, ao ruir moralmente. A suave anomalia do título estilhaça-se, é mil, um caleidoscópio. Há quem enxergue imagens diferentes, graças ao efeito óptico, num tubo de papel. Há quem simplesmente se negue a ver.

Marina, personagem que carrega em si a casa da infância, com seus fantasmas e prazeres, move a trama. Há entre ela e o avô um abismo de proximidade. Sua aparição amaldiçoada desenha os lances de um jogo sem vencedores e impossível de abandonar. Por natureza e essência, ela será sempre a adversária. De algo, de alguém, da vida.

A Suave Anomalia pede leitura sem pressa, para ir recolhendo aqui e ali pequenas ironias, reconhecendo aqui e ali as artimanhas familiares que conhecemos bem, encontrando aqui e ali, em cada página, o talento de Márcio de Matos, este jovem autor baiano que estreia com voz própria e grande capacidade de dissecção de moluscos octópodes e de outros graciosos monstros marinhos.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fazer ficção é sonhar acordado

Entrevista concedida a Frente & Verso Comunicação Integrada

Faltando 15 dias para o lançamento do seu primeiro livro, o autor baiano Márcio Matos fala dos desafios enfrentados pelos novos literatos brasileiros, da experiência de produzir A Suave Anomalia, romance vencedor do edital de Apoio à Edição de Livros de Autores Baianos, que sai pelo selo da editora Casarão do Verbo - e dos preparativos para o lançamento da obra em 19 de agosto, às 19h30, na Galeria do Livro do Espaço Unibanco Glauber Rocha.

O que o fez escrever A Suave Anomalia?

É muito difícil para um escritor explicar as razões do seu ofício. Primeiro, porque pode parecer cabotinismo. E segundo porque não há uma motivação específica. A minha escrita é uma resposta ao que eu vejo e ao que se passa comigo. Provavelmente, A Suave Anomalia nasceu a partir da incômoda observação do comportamento de alguma família, não necessariamente a minha.

Qual a proposta de seu livro?

Não gosto da palavra proposta. Ela soa como algo planejado, pomposo e, definitivamente, A Suave Anomalia não nasceu de nenhuma intenção prévia. Porém, se pensarmos no resultado final do livro, poderíamos dizer que ele é uma crônica de costumes.

O senhor faz uma crítica à família?

Sim e não. A instituição familiar é complexa, mas ela representa apenas a união entre duas pessoas naturalmente atraídas em torno de algum propósito: procriação, autopreservação etc. O sujeito existe antes da família. Nela ele adquire parte da sua formação; a partir dela ele se projeta. Dentro da família o sujeito vivencia problemas que são só dele, mas que podem ser potencializados pelo convencionalismo do modelo de convivência comum à maioria das casas (geralmente opressivo e hipócrita). Em A suave Anomalia eu focalizo o sujeito. A família é apenas o ambiente catalisador dos dilemas individuais.

Por que optou por uma ficção?

Fazer ficção é sonhar acordado. Borges, que pra mim é um escritor quase insondável, tem uma frase fundamental: "A literatura não é outra coisa além de um sonho dirigido".

Por que alguns personagens não têm nome? Dizem que o nome é uma das marcas da identidade de uma pessoa.

Há um núcleo central de personagens que conduz a narrativa, que faz as coisas acontecerem e há os "mortos-vivos", que orbitam em torno desses personagens. Os sem-nome até tentam algum protagonismo, mas em geral são arrastados pelo que os mais determinados desejam. Quando a identidade é falha, o indivíduo fica à mercê dos outros.

O mistério que conduz a trama foi casual ou decidido no início da história?

O mistério serve à narrativa e não o contrário. Não foi a minha intenção fazer o que os americanos chamam de "whodunit", o famoso "quem matou?". Sempre me interessa muito mais dissecar as motivações dos personagens.

Vamos falar um pouco sobre os preparativos para o lançamento da obra?

Está tudo muito bem encaminhado. A equipe que está comigo na empreitada é formada por pessoas muito competentes e todos estão se esforçando para, ao menos, lançar no mercado um produto digno do formato livro.

Quais as dificuldades que o Senhor enfrentou para publicar o livro?

Sou um cara cético. Tenho a consciência de que estou na periferia do sistema cultural do país e, talvez por isso, não tenha corrido atrás de uma editora. Acho que por aqui a grande saída são mesmo os editais culturais e o patrocínio das grandes empresas.

O senhor acredita que há falta de incentivos ao escritor no Brasil?

Não acho que alguém precise de incentivo para se tornar escritor. Essa necessidade simplesmente se impõe sem que tenhamos controle consciente sobre ela.

O que acha do escritor brasileiro?

O escritor brasileiro "é antes de tudo um forte". Precisa ter perseverança para insistir na carreira. Somos um país de iletrados e, por aqui, mesmo os que se interessam por livros preferem os de auto-ajuda ou os de vampiros castos.

Quais escritores te influenciaram e de que forma?

O maior de todos: Philip Roth. O que tem maior capacidade para contar histórias: Eça de Queiroz. E o mais genial desbravador da alma humana: James Joyce. Seria um atrevimento dizer que eles me influenciaram. Prefiro dizer que eles me inspiraram.

O leitor poderá aguardar novos lançamentos de Márcio Matos?

Só quem pode responder a essa pergunta são os editores. Eu continuarei com meus alfarrábios (já deu pra perceber que a escrita me persegue, né?).